Recursos bilionários para o Plano Brasil Medalhas não foram utilizados

em Orçamento | 23.01.2017

Em abril de 2013, o então ministro do esporte, Aldo Rebelo, lançou o Plano Brasil Medalhas, que destinaria R$ 1 bilhão a mais ao orçamento do Ministério do Esporte -- na época, a pasta previa outro R$ 1,5 bilhão ao esporte de rendimento para 2013 a 2016. Desse recurso extra, 67% viria da União e a outra parte por meio de empresas estatais.

O investimento bilionário, no entanto, não foi totalmente utilizado. Na mesma linha, o objetivo de saltar 12 posições no quadro geral de medalhas em relação aos Jogos de Londres-2012, terminando entre os 10 melhores do mundo em 2016 também não aconteceu.

Dos R$ 690 milhões que seriam direcionados aos atletas, menos da metade (R$ 328 milhões) foi destinado às seleções por meio da Bolsa Atleta, contratação de técnicos e equipes multidisciplinares, compra de equipamentos e viagens para treinamentos e competições. Na outra fatia orçamentária estavam previstos R$ 310 milhões para construção, reforma e equipagem de centros de treinamento e complexos multiesportivos. Nesse caso, foram gastos 46% além do anunciado (R$ 452,2 milhões).

Ao ser questionado pelo jornal Correio Braziliense, o Ministério do Esporte respondeu que "a liberação de recursos atendeu às necessidades de construção de instalações esportivas e de apoio aos atletas no período" e não mencionou os motivos para a diferença das quantias previstas no lançamento em comparação às usadas até o fim do programa.

Segundo levantamento da Contas Abertas, a União autorizou transferência de R$ 713,3 milhões ao Plano Brasil Medalhas entre 2013 e 22 de agosto de 2016. Contudo, o montante utilizado foi de R$ 446,7 milhões, valor equivalente a 62,2% do total autorizado pela União. Considerando que a parte do governo federal no R$ 1 bilhão foi de R$ 667 milhões, o total usado só chegou a 44,7%.

O professor de administração pública da Universidade de Brasília (UnB) José Matias-Pereira explica que no Brasil é bastante comum usar um valor menor do orçamento alocado. "Esse é um caso típico em que o planejamento foi falho, com um superdimensionamento nesse tipo de atividade", aponta o especialista.

"Em todo o processo da Copa do Mundo e das Olimpíadas, não houve um planejamento consistente. Isso abre janela para desperdício e corrupção." "Em todo o processo da Copa do Mundo e das Olimpíadas, não houve um planejamento consistente. Isso abre janela para desperdício e corrupção" José Matias-Pereira, professor da UnB e especialista em administração pública.

Novo ciclo

Um novo ciclo olímpico começa após a festa da Rio-2016. Nos últimos quatro anos, o governo federal investiu mais de R$ 4 bilhões na preparação de atletas, aquisição de equipamentos, infraestrutura esportiva e centros de treinamento. O dobro do valor destinado ao ciclo olímpico de Londres-2012. Isso sem contar o repasse de mais de R$ 700 milhões ao Comitê Olímpico do Brasil (COB), oriundo da Lei Agnelo/Piva, distribuído às confederações.

O resultado: a 13ª colocação do Brasil no quadro de medalhas da maior competição multiesportiva do mundo. Não era exatamente o que o COB almejou em 2013. Mas, mesmo sem atingir a meta de ficar entre os 10 primeiros, o comitê nacional avaliou positivamente a participação brasileira na Rio-2016.

Agora, ao começo de um novo ciclo olímpico, as perspectivas se mantêm em alta. "O objetivo é sempre oferecer as melhores condições na preparação para que os atletas e equipes brasileiras melhorem seus desempenhos e, consequentemente, superem em Tóquio-2020 o total de medalhas obtido no Rio", afirma a entidade.

Otimismo?

Para o secretário nacional de Esporte do Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Luiz Lima, existe a "possibilidade enorme" de o Brasil ter um melhor rendimento em 2020. "Fizemos tudo certinho para promover uma festa, uma festa realizada em 2016. Essa festa foi tão grandiosa que pode sobreviver, sim, e ser até melhor em 2020", avalia. "Mas me preocupa esse modelo para os anos seguintes, depois de 2020", confessa.

Especialistas acreditam que o receio é imediato. A professora e pesquisadora do departamento de esporte da Universidade de São Paulo (USP) Ana Lúcia Padrão afirma que uma melhora no desempenho em 2020 não se sustenta, se forem analisadas todas as variáveis. Um aspecto ressaltado é a queda de investimentos após o fim de uma olimpíada em casa. "Normalmente, os países decaem depois que sediam os Jogos, pois a preparação é melhor quando estão competindo nos próprios países.

*As informações são do jornal Correio Braziliense