Após escândalos, projetos anticorrupção se acumulam na Câmara

Por Bianca Gomes de Carvalho, Focas do Estadão

Depois de grandes escândalos, uma onda de projetos anticorrupção costuma invadir as comissões da Câmara dos Deputados. Os anos de 2007 e 2015, que sucederam o Mensalão e a Lava Jato, são recordistas em iniciativas parlamentares envolvendo o tema corrupção. Foram 143 proposições sobre o assunto, mas nenhuma foi aprovada até o momento, segundo levantamento do Estado.

"Nem sempre o deputado apresenta achando que vai ser aprovado. Sabe que é difícil, às vezes tem outro parecido. É para dizer à sociedade que ele apresentou um projeto de lei de combate à corrupção", afirma o advogado Michael Freitas Mohallem, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e um dos coordenadores de um estudo sobre o tema divulgado em abril deste ano. São propostas que funcionam, muitas vezes, como prestação de contas dos parlamentares, explica.

O combate à corrupção é apontado por pesquisadores como uma das bandeiras dos políticos nas eleições do ano que vem. Desde 2015, quando o Instituto Datafolha divulgou que 34% dos entrevistados consideravam a 'corrupção' o maior problema do País, à frente de temas como educação e saúde, os candidatos passaram a incluir essa bandeira em suas campanhas. "Hoje em dia, a principal angústia do brasileiro é a corrupção. É claro que os parlamentares procuram angariar alguma simpatia de seus eleitores com isso", afirma o fundador e secretário-geral da Associação Contas AbertasGil Castello Branco. Mas é só para dar uma satisfação ao eleitorado, diz.

Na maior parte dos casos, essas iniciativas não avançam. Em 2016, apenas 1,56% das proposições em tramitação na Câmara abarcavam o tema. "Essas propostas acabam caindo numa gaveta qualquer, não tendo seguimento porque não interessa aos parlamentares avançar no combate à corrupção, já que as vítimas serão eles mesmos", afirma Castello Branco. "Trata-se muito mais de um processo demagógico do que de um processo legislativo sério. Há uma rede de proteção dentro do Congresso em que os parlamentares estão preocupados a legislar ao seu favor."

Essa falta de interesse no avanço de tais propostas está na base da lentidão do processo legislativo, diz o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV. "Se fosse prioridade, tramitaria rapidamente." Quando os projetos são apresentados, explica, há um foco maior, mas o comum é a proposta acabar sendo esquecida.

Tramitação

De acordo com o estudo Diagnóstico Institucional: Primeiros Passos para um Plano Nacional Anticorrupção, elaborado pela FGV em abril de 2017, o partido político que teve maior média de proposições sobre o assunto proporcionalmente ao tamanho da bancada foi a Rede Sustentabilidade, com média de 3,5 projetos por deputado. Em seguida, PSOL, com 1,83, e PPS, com 1,63.

Segundo o estudo, mais de 40% das iniciativas têm caráter preventivo e 35% propõem medidas punitivas. Entre elas, aumento da transparência, maior velocidade nos processos judiciais e menor poder discricionário em processos licitatórios no setor público. "Existem boas temáticas, com teor mais preventivo ou detectivo, que têm grande potencial para o combate à corrupção e merecem ser aprofundadas", diz a cientista política Isabel Veloso, uma das pesquisadoras do Diagnóstico.

Além da falta de prioridade para a tramitação dos projetos anticorrupção, os especialistas temem o avanço de iniciativas no sentido contrário, como propostas para modificar as regras de delação premiada, de condução coercitiva de investigados e de prisão de réus condenados em segunda instância. "Tem praticamente uma centena de políticos envolvidos na Lava Jato com a possibilidade de continuar legislando, e agora eles vão tentar legislar em seu favor. É exatamente o que está acontecendo", alerta Castello Branco.

Para o economista Gustavo Andrey de Almeida, assessor econômico do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, o Congresso está atuando no sentido de aumentar a leniência. "Acaba se tornando complicado aprovar qualquer tipo de medida particular que vá aumentar a penalidade ou o combate à corrupção especificamente em um setor, porque na verdade o Congresso está em um sentido contrário, até de aumentar a leniência", explica Almeida, também professor do Departamento de Gestão Pública da EAESP-FGV. As propostas existem, completa Castello Branco, mas dificilmente vão continuar sendo aprovadas na linha do endurecimento contra a corrupção.


Publicada em : 20/12/2017

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